A primeira noite de protestos e confusão em Campinas

11 Postado por - 22/06/2013 - Artigos, obailetodo, Textos

protesto120 de junho de 2013, as manifestações que se espalharam pelo país chegam em Campinas, estive lá e posso contar pra vocês oque vi. Logo no caminho o clima já era diferente do que eu tinha presenciado na terça anterior em Valinhos. Comércios fechados, ruas quase sem carros e pouca gente na rua. O preço da passagem de ônibus, que é motivo único do MPL ter iniciado com os protestos, já havia sido reduzido. Na véspera da manifestação o Rui Falcão havia convocado PT e sindicatos para formar uma onda vermelha durante o manifesto de comemoração. Some isso ao fato de que a turma que aderiu ao a MPL ter pregado a pecha de “apartidário” ao movimento, com um empurrão da mídia de massa. Basta lembrar que em São Paulo já haviam rolado diversos desentendimentos entre partidários (de esquerda, que sempre acompanharam o MPL) e novos aderentes. A sensação de que ia dar merda era grande.

protesto2Caminhamos para a Francisco Glicério, encontramos o povo todo por lá. Estudantes, médicos, advogados, trabalhadores, vagabundos, nóias, gente de cidades da região, todos ali com seus protestos particulares, convivendo pacificamente. A essa hora parecia que eu havia chego no protesto da dislexia, eram tantas causas e cartazes que era fácil esquecer que tudo tinha começado com o MPL lutando pelo passe livre. Umas 3 baterias de diferentes universidades tocavam ali no Largo do Rosário, o povo pulava e mandava o já clássico “vem pra rua”, fomos rumo a Moraes Sales. Não havia nenhum PM por perto e as coisas seguiam tranquilas, embora rolasse algumas bombas e rojões por parte de alguns manifestantes.

protesto3Ao chegar na esquina com a Moraes Sales vi uns moleques tacarem fogo num coqueiro ao lado de um ponto de ônibus. A própria galera reprimiu os moleques e apagou o fogo (esses caras da foto estão apagando). Era um sinal de que as coisa iam esquentar. Seguimos o caminho e fomos para a prefeitura. A quantidade de gente era impressionante, Largo das Andorinhas, Anchieta e todas as ruas em volta cheias de gente. Na prefeitura, apenas a GM cuidava do prédio. Não demorou muito e voaram as primeiras pedras e rojões na direção da GM/prefeitura. Os GM responderam com spray de pimenta, bombas de gás e efeito moral. Naquela batalha de avanço lento a GM conseguiu retomar o jardim da prefeitura e toda a área da Anchieta na frente dela.

protesto4Nessa hora a mistura de gás e pimenta pegava forte, era difícil de respirar e abrir os olhos, saímos fora para a José Bonifácio. Lá nos juntamos a um grupo que fechou a rua no cruzamento com a Barreto Leme. Assim que esse grupo tomou corpo, descemos com eles a Barreto Leme até a Norte Sul. Chegando lá as duas vias da Norte Sul foram fechadas pelo grupo. Uma viatura da PM acompanhava de longe, fui lá trocar uma ideia com o policial. Ele me contou que a orientação da PM no dia era só observar e foi isso que ele ficou fazendo de longe. Aproveitamos o momento de calmaria, achamos um bar aberto e fomos lá refrescar a garganta.

protesto5Quando voltamos o grupo da Norte Sul havia sumido, encontramos com um americano que estava sozinho na avenida e ele acompanhou a gente na busca de onde estava a manifestação. Subimos para o Centro de Convivência, o clima estava tranquilo por lá. Do nada surgem umas 6 viaturas da Força Tática, voando, na contra mão, passam e vão embora. Descemos para Anchieta e fomos novamente para a prefeitura. O jardim estava liberado novamente e o lugar lotado. Depois de um tempo o o bicho pegou novamente.

protesto6Desta vez quem devolvia as pedradas era a PM e a intensidade era bem maior do que a da guarda. A galera do enfrentamento passou a apelar também, pulou no Carlos Gomes e começou a depredar o prédio todo para se municiar contra a PM. Enquanto as bombas explodiam vi um rastro grande de sangue no chão. A frequência das bombas aumentavam, nosso amigo americano achou melhor sair fora, já tinha visto o bastante. Ele até fez esse vídeo que dá uma boa ideia de como a coisa se desenrolou:

protesto7Encontramos mais um amigo e resistimos o máximo que pudemos ao gás e as bombas no Largo das Andorinhas. Quando ficou pesado demais subimos a Thomas Alves para contornar pela Luzitana e descer do outro lado da prefeitura. Ainda na Thomas Alves vimos uma galera arrombando uma loja da Boticário. O pessoal gritava “sem vandalismo” mas a galera nem se importava e batia com força na porta usando um aríete improvisado, foi o primeiro saque que presenciamos.

protesto8Quando descemos a Barreto Leme deu pra chegar atrás da onde estava o choque, a frente da prefeitura estava toda destruída. O radar que fica ali na frente foi pro chão junto com os vasos e todos oss vidros dos pontos de ônibus, orelhões estavam arrebentados, nada mais estava inteiro por ali. Ali perto um supermercado teve sua porta arrombada, a galera saqueou e segundo ouvimos colocou fogo lá dentro. Rapidamente haviam uns 30 ROCAMs ali na porta, os bombeiros também chegaram. Na hora cheguei a pensar que os bombeiros iam jogar água pra dispersar a galera, pra nossa sorte não era isso.

protesto9Tentamos contornar para chegar a prefeitura novamente, fomos impedidos por policiais próximos a ao estacionamento que atravessa atrás da prefeitura. Ali encontramos uma galera que achou uma mangueira e tinha água, um bom alivio pra quem estava no meio do gás fazia tempo. Quando chegarmos na Benjamin Constant a cavalaria passou descendo sentido Anchieta. Essa hora o Choque já estava em peso e a confusão havia se espalhado. Entrei na Boaventura do Amaral e rolava uma guerra pelo domínio da rua, de um lado Choque com bombas, gás e balas de borracha e do outro uma galera colocando fogo em lixo e mandando pedras e rojões.

protesto10Era a vitória do estado, a maior parte das pessoas se dispersaram e o Choque ocupava a Anchieta e várias ruas no seu entorno. Ouvimos dizer que uma confusão estava rolando no fórum, rumamos para lá mas não encontramos nada. Apenas policiais escoltando caminhões que faziam a limpeza. No caminho até o carro vimos bancas de jornal sendo saqueadas na Glicério e algumas vidraças quebradas. O protesto daquela noite havia acabado.

protesto11Hoje vejo pela tv que a coisa ficou feia novamente, nesse jogo ninguém tem razão. O protesto, ainda que vazio pela amplitude e abstração de suas causas, tem se tornado frequentemente em episódios de violência. Muita gente perdida pronta para servir de manobra. Como disse o André Dahmer: “Oportunistas almoçam oportunidades. O restaurante está mais aberto do que nunca.” Quem quiser ver mais fotos do protesto, tem 68 delas lá no meu flickr.

1 comentário

  • Oãzel 22/06/2013 - 3:37 am Responder

    Muito foda essas fotos!

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