Africa Livre #04 – O Califado de Sokoto

0 Postado por - 11/04/2012 - Audio, obailetodo, Podcasts

AFRICA LIVRE
seu programa de musica, cultura e informações sobre as Áfricas

O Califado de Sokoto foi um dos maiores impérios muçulmanos do Sahel – região que fica na fronteira entre o deserto do Saara e as zonas úmidas da floresta equatorial da África – durante o século XIX. O império desenvolveu-se em função das jihads (guerras santas) dos fulas, (grupo étnico-linguístico) na primeira década do século XIX, na região onde hoje é o norte Nigéria. O Califado de Sokoto era o centro da política, da cultura e da economia na região até que foi derrotado pelos os exércitos franceses e britânicos no início do século XX. O grande estado islâmico foi fundado no início do século XIX por Usman Dan Fodio, primeiro sultão de Sokoto ou, na terminologia da época, o primeiro Sarkin musulmi (comandante dos fiéis). Embora Dan Fodio se recusasse a assumir o título de Sultão, cada um de seus sucessores se auto-declararam Sultão de Sokoto.

Dan Fodio foi um líder religioso e professor fula que vivia na cidade-estado hauça de Gobir. Iniciou a sua jihad em 1804, depois que ele e seus seguidores foram expulsos da cidade. Em 1815, quando seus exércitos terminaram suas conquistas, o império religioso Usman Dan Fodio abrangía um pouco mais do que é agora o norte da Nigéria e dos Camarões, bem como pequenas partes ao sul do Níger e a oeste do Chade. Dan Fodio também influenciou as guerras santas de regiões próximas, cujo resultado foi a criação de estados islâmicos no Senegal, Mali e Chade.

O império continuou a ser um sucesso econômico durante todo o século XIX, uma vez que o território estava unificado. O nível de prosperidade era sem precedentes e a região manteve-se a salvo de ataques dos nômades do Saara. Enquanto o sultão de Sokoto era essencial para a prosperidade e unificação do califado, os emires (chefes do emirados) controlavam outras cidades – um exemplo importante era a cidade de Kano, por sua pujança comercial.

Brindaremos o leitor-ouvinte com artistas da região que foi controlada por muçulmanos no século XIX, em uma homenagem muito oportuna ao último “Sábado de Aleluia”. Do Chade, ouviremos Maître Gazonga; o Grupo Mamar Kassey, do Níger; o famoso camaronês, Manu Dibango e; Huruna Ishola, da islamizada terra dos iorubás, na Nigéria.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.


download

Musicas do programa:
Maître Gazonga – Dadahalime // Troumtroum
Mamar Kassey – Yeti-Yeta // Zamani
Manu Dibango – Blowin’ westen mind // Jam session // Liberation song
Haruna Ishola – Late Mattheu toye // Erin onihun se nile

Nascido Ahmat Saleh Rougalta, Maître Gazonga é o único cantor do Chade que alcançou um alto nível de popularidade em seu o país. Nascido em 1948, Gazonga faleceu em 2006. Seu talento foi reconhecido tanto por seus fãs como como pelos seus pares e em todo o território nacional. É altamente reverenciado no país por ter cantado a sociedade chadianoa em todas suas facetas. Embaixador do Chade para a música, era um homem de todos. Seus muitos talentos e experiência fizeram dele uma personalidade única. Gazonga dedicou-se ao estilo afro-pop “islâmico” e suas músicas são cantadas em francês, árabe e sarah.

A República do Chade é um país na África Central que faz fronteira com a Líbia, o Sudão, a República Centro-Africana, Camarões, Nigéria e Níger. Devido à sua distância do mar e seu clima predominantemente desértico, o país é por vezes referido como o “coração morto da África”. O Chade é dividido em várias regiões: a zona desértica no norte, uma zona saeliana no centro e uma área de savana mais fértil no sul. O Lago Chade, acidente geográfico que dá nome ao país, é a maior planície alagada do Chade e a segunda maior em África. N’Djamena é a capital e a maior cidade. O Chade é o lar de mais de 200 diferentes grupos étnicos e linguísticos. O árabe e o francês são as línguas oficiais. O islamismo e o cristianismo são as religiões mais praticadas. Até o final do 1 º milénio da nossa era, uma série de estados e impérios se levantaram e caíram na faixa saeliana do Chade, cada um concentrando-se em controlar as rotas de comércio trans-saariano que passavam pela região. A França conquistou o território em 1920, incorporando-o como parte da África Equatorial Francesa. Em 1960, Chade obteve sua independência sob a liderança de François Tombalbaye.

Mamar Kassey é uma banda do Niger que toca os sentidos com um pop-jazz étnico. Seu nome foi inspirado em um lendário guerreiro que expandiu o império do Songhai até o deserto do Saara. O líder da banda é o vocalista e flautista Yacouba Moumouni. O grupo combina rítmos tradicionais como o hausa, djerma, fula e songhai tocado com instrumentos como o molo (um alaúde com um corpo coberto de pele) e instrumentos modernos, como o baixo elétrico. Seu som também incorpora jazz ocidental, música marroquina e latina. É um grupo de oito integrantes, organizado por Maumouni e pelo guitarrista Abdallah Alhassane em 1995. Mamar Kassey lançou dois álbuns internacionais e fez excursão pela Europa e Estados Unidos várias vezes. O Grupo ganhou visibilidade na França depois de uma aparição no Festival Noites Atípicas de Langon, em 1998. É um dos poucos grupos musicais do Níger conhecidos internacionalmente e muito amado em seu país de origem.

A República do Níger é um país localizado na região do Sahel e limita-se com a Argélia, Líbia, Chade, Nigéria, Benim, Burkina Faso e Mali. Seu nome deriva do rio homônimo, cuja bacia irriga boa parte da África ocidental. O Níger foi incorporado à África Ocidental Francesa em 1896. O país abrange uma área de quase 1.270.000 km2, sendo a maior nação da África Ocidental. Contudo, mais de 80% de sua área é coberta pelo deserto do Saara. A população do país é predominantemente islâmica, com um número estimado de 15 milhões de habitantes, os quais se agrupam no extremo sul e oeste do país. Sua capital é Niamey e está localizada no extremo sudoeste do Níger. A língua oficial do país é o francês. Após o estabelecimento da Quinta República Francesa, em 4 de Dezembro de 1958, tornou-se um estado autônomo dentro da Comunidade Francesa. Sua independência total ocorreu em 3 de agosto de 1960.

Emmanuel ‘Manu’ N’Djoké Dibango nasceu em 12 de dezembro de 1933 em Douala, Camarões. É um saxofonista e vibrafonista que desenvolveu um estilo musical que faz convergir o jazz, o funk e a música tradicional camaronesa. É mais conhecido por sua mais famosa canção Soul Makossa (alma makossa), um afrobeat de 1972. Ele é membro do grupo étnico Yabassi, o mesmo de seu pai, embora sua mãe fosse da etnia Duala. Michel Manfred N’Djoké Dibango – seu pai – foi um funcionário publico, filho de fazendeiro, que conheceu a esposa em uma viagem de canoa quando voltava para casa em Douala. A mãe de Dibango era uma mulher alfabetizada que havia se tornado designer de moda e cuidava do seu próprio negócio. O casamento dos pai e mãe do músico camaronês foi motivo de desdém na família, por ser um casamento interétnico. Nos Camarões, o pertencimento étnico é ditado pela família paterna, contudo Dibango escreveu em sua autobiografia que “nunca foi capaz de se identificar completamente com nenhuma das etnias dos seus pai e mãe”.

A República dos Camarões é um país no oeste da África Central que faz fronteira com a Nigéria, o Chade, a República Centro Africana, Guiné Equatorial, Gabão, República do Congo e o Oceano Atlântico. O país é chamado de “África em miniatura” por sua diversidade geológica e cultural. Possui regiões climáticas tão diversas como praias, desertos, montanhas, florestas tropicais e savanas. As maiores cidades do país são Douala, Garoua e Yaoundé. Esta ultima sua capital. Os Camarões são constituídos por mais de 200 diferentes grupos linguísticos. Os exploradores portuguese chegaram à sua costa no século XVI, denominando a área de Rio dos Camarões; o nome pelo qual foi batizado. Soldados fulas fundaram o Emirado Adamawa no norte (tributário do Califado de Sokoto), no século XIX . A região tornou-se colônia alemã em 1884. Depois da Primeira Guerra Mundial, o território foi divido entre franceses e britânicos em um mandato da Liga das Nações, pois a Alemanha havia sido derrotada na guerra. Em 1960, a parte de Camarões administrada pela França tornou-se independente com o nome de República de Camarões. A parte sul, ou os Camarões britânicos fundiu-se a esta em 1961 para formar a República Federal dos Camarões. O país foi renomeado República Unida dos Camarões em 1972 e República dos Camarões em 1984. O francês e o inglês são as línguas oficiais.

Haruna Ishola foi um dos mais populares artista do apala. Nascido na cidade de Ijebu-ibo, na Nígeria, o músico começou a gravar números apala por volta de 1955, e logo se tornou o artista mais popular do gênero. Era o mais respeitado cantor de louvores da Nigéria. Apala é um tipo musical que segue uma forma de perguntas e respostas alicerçado em uma rede de percussão. É o estilo musical favorito dos iorubás da Nigéria. Nas décadas que antecederam a independência da Nigéria, em 1960, a Apala desenvolveu-se através de músicos amadores que a tocavam para despertar os fiéis depois do longo jejum do Ramadã.

Como já falamos da Nigéria no podcast de estréia Africa Livre 01 – Estréia trataremos aqui da região da Nigéria de onde Haruna Ishola é oriundo: a Iorubalândia. A Iorubalândia é uma região cultural africana que compreende parte da Nigéria, do Togo e do Benim, habitada pelo povo iorubá. Entre 1100 e 1700, o Reino iorubá de Ife viveu uma era dourada. Foi superado posteriormente pelo Império Oyo, também iorubá, que dominou militar e politicamente a região entre os séculos XVIII e XIX. A faixa iorubana vizinha no Reino do Benin foi também uma força poderosa entre 1300 e 1850. Por causa da jihad desencadeada por Usman Dan Fodio, os fulas começaram uma expansão do Califado de Sokoto para o sul em direção ao Império Oyo. Pouco tempo depois, os seguidores de Dan Fodio invadiram a cidade iorubá de Ilorin e saquearam Oyo-Ile, a capital do Império Oyo. Outras tentativas de expansão do califado de Sokoto foram sentidas pelos iorubás, que se uniram para resistir, sob a liderança militar da cidade-estado de Ibadan, que cresceu a partir do antigo Império Oyo e das cidades-estados de Ijebu. Contudo, a hegemonia Oyo tinha sofrido um golpe mortal. Outras cidades-estados se libertaram do domínio Oyo, envolvendo-se em uma série de guerras intestina. Foi neste período que milhões de pessoas passaram a ser transportadas à força para a Cuba, República Dominicana, Porto Rico, Brasil, Venezuela e outras partes do Mundo, no famigerado Tráfico Transatlântico de Escravos.

4 + comentários

  • Guido Barella 11/04/2012 - 2:53 pm Responder

    Cara, “estilo afro-pop “islâmico” e suas músicas são cantadas em francês, árabe e sarah.” . Q q isso! Mestre Gazonga! VOu mais afundo nele agora …

  • Marcos Dias Coelho 11/04/2012 - 5:37 pm Responder

    É muito massa, mas tem pouca coisa na rede sobre Gazonga. No Chade tem outros muito legais, como Clament Masdongar, mas só tenho uma música do cara que é artista plástico, ator e músico. Tem uma site sobre essa galera: http://www.ialtchad.com/musique.htm Infelizmente as músicas estão em RM, tive que converter para MP3 e a qualidade ficou um pouco ruim. Contudo a galera do Mamar Kassey não fica nem um pouco aquém. Dê uma ouvida atenta. Abração

  • Francisco Cano de Oliveira 12/11/2012 - 11:30 pm Responder

    Olá, obrigado por esse artigo maravilhoso! Ótimo texto e totalmente claro. Fiz um trabalho para o Mestrado com mais três meninas justamente sobre esse tema. Se quiser dar uma lida e sua opinião depois ficarei contente. Um abraço e obrigado!

    • Marcos Dias Coelho 13/11/2012 - 1:38 pm Responder

      Oi Francisco, teria um enorme prazer e lê-lo sim!! Se quiser, mande para meu email: marvindico@hotmail.com. Abração e brigadão por curtir o podcast.Espero que tenha gostado das músicas tbm.

    Deixe uma resposta