Africa Livre #06 – Alta Guiné I

0 Postado por - 01/07/2012 - Audio, obailetodo

Africa Livre
seu programa de música, informação e cultura sobre as Áfricas.

Dois eventos parou temporariamente o África Livre. Por um lado, a reforma das instalações da Radio Muda , por outro a reestruturação do Na Lupa. Superados estas eventualidades, o Africa Livre volta ao Na Lupa para dar continuidade ao projeto de divulgação da produção musical africana, temperando-a com pitadas de história do continente. Por causa desse tempo fora do ar, não foi possível falar sobre o dia 25 de maio de 1963, o dia da África. Nesta data foi criada a Organização da Unidade Africana, instituição internacional que visava, sob os auspícios do pan-africanismo, reforçar a relação entre os países recem-independentes do continente. Esta data passou a ser festejada como o dia celebrativo para o continente. Afinal, foi na década de 1960 que a maioria dos seus países tornaram-se independentes do poder colonial europeu. Para celebrar a data, escolhi falar da região onde se iniciou os contatos entre europeus e africanos. Contatos estes que iriam sofrer ainda muitas transformações durante os próximos cinco séculos de relações, muitas vezes, conflituosas e violentas. Peço desculpas aos leitores/ouvintes pelo atraso desta postagem. Este programa foi ao no sábado do dia 26 de maio de 2012. Embrora seja possivel ouvir o Africa Livre ao vivo, todo sábado às 19:00h no site da Radio Muda, entraremos de férias durante o mês do julho. Enquanto não voltarmos, você poderá ouvir nossos podcast aqui.

A região que no século XV era denominada alta Guiné, situava-se no território compreendido entre a foz do rio Gambia e a foz do rio Bandama. Hoje, neste território estão situados oitos países africanos modernos. Gambia, Senegal, Guiné Bissau, Guiné (Conacri), Serra Leoa, Libéria e Costa do Marfim, alem do insular Cabo Verde, que na época era sede do território de Bissau. Os primeiros europeus a chegarem à esta grande área foram os portugueses, por volta de 1450. Em decorrencia da extensão do território, muitos povos habitavam este vasto espaço. Havia sociedades rizicultoras descentralizadas, muitas das quais organizadas politicamente em clãs. Os clãs eram unidades políticas baseadas em laços de parentesco, onde o lider político era um patriarca ou chefe de clã. A religião, para os não islamizados, consistia no culto aos antepessados. O culto aos ancestrais concretizava-se por via de estatuetas que os representavam. Tais estatuetas recebiam o nome de nomoli ou pomta. Havia distinção entre aquelas que representavam algum ancestral notável e aquelas designativas dos antepassados das pessoas simples.

Os povos desta região viveram uma situação histórica curiosa neste período (século XV e XVI), haja vista encontrarem-se em contato simultâneo com duas culturas em expansão. Pelo Atlântico chegavam os portugueses, enquanto do interior expandiam-se os mandem – cultura basilar na fomação do Impériod do Mali. Ou seja, a aproximação dos portugueses desviou a corrente comercial de produtos de alto valor, como o ouro e os escravos, que até então estava voltada para o Saara. O tráfico de escravos se consolidaria como pricipal atividade econômica um século depois, causando grandes transformações. Os povos da região representaram em esculturas de marfim os portugueses e seus navios. Por seu turno, a invasão mandem influenciaria a região expandindo sua língua, estruturas políticas centralizadas e o comercio de longa distância com o Saara. Vivendo neste cruzamento, tais povos esforçaram-se para manter sua identidade. O podcast de hoje é ilustrado pelo Portulano de Macia de Viladeste, um artefato geográfico produzido por europeus que na época se preocupavam em circunscrever geograficamente os povos desta região.

Dividi o tema deste programa em duas partes, uma vez que a região da alta Guiné abrangia o território ocupado hodienamente por oitos países. Como só há espaço para apresentar quantro países por programa, os leitores/ouvintes ficaram com o gostinho de quero mais para o nosso próximo podcast. Na parte I, abordarei Cabo Verde, Gambia, Senegal e Guiné Bissau, apresentando respectivamente importantes artista destes países como Lura, Ifang Bondi, Youssou N’Dour e Bidinte.

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

download


Músicas do programa:
Lura – Libramor // Maria // Sukundida
Ifang Bondi – Barro wuolo // Chin // Mantra
Youssou N’Dour – Old man (gorgi) // Mame bamba // How are you (no mele)
Bidinte – Ke cu mininu na tchora // Quinta di mores // Considjo di garandis

Maria de Lurdes Pina Assunção é o nome de batismo de Lura que veio ao mundo no ano de 1975 em Lisboa. É uma cantora portuguesa de ascendência cabo-verdiana. Aprendeu o crioulo caboverdeano de seus colegas de escola e de seus familiares e pouco tempo depois, Lura já era capaz de falar fluentemente e também compor nessa língua-símbolo de Cabo Verde. Língua esta que hoje a cantora considera como sendo sua língua materna. Sua carreira como cantora despontou em 1996, aos vinte e um anos, quando gravou seu primeiro álbum, cuja canção título, “Nha Vida”, foi sucesso imediato. Em 2002, lançou seu segundo álbum, In Love. Em novembro de 2003, Lura foi uma das três cantoras escolhidas para o projeto Women of Cape Verde, uma série de concertos realizada no Reino Unido. Tal premiação lhe rendeu convites para o lançamento de seus álbuns em diversos países europeus. Como falamos de Cabo Verde em nosso Africa Livre #01 – Estréia , não voltaremos ao assunto.

Ifang Bond significa “seja você mesmo” em língua mandinga, um das línguas mais faladas na África ocidental. Este foi o nome adotado pela antiga banda Super Eagle. Criada nos anos 60, os Super Eagles eram um dos mais importantes grupos musicais da Gambia e do Senegal. Em 1970, os Super Eagles se desfizeram, apenas para renascer em 1973 como Ifang Bondi. O nome era tão novo quanto as musicas que a banda passaria a performar. Apresentaram pela primeira vez ritmos, melodias e instrumentos próprios da Senagâmbia. O Ifang Bond integrou instrumentos tradicionais como kora, balafon, sabar, tambor, bugarabu e djembe com instrumentos modernos como a guitarra elétrica de base e teclados. Por isso, eles foram reputados como os verdadeiros criadores do atual “afro-mandinga”, ritmo executado por estrelas como Yousou N’Dour, Salif Keita e Mory Kante.

A República da Gâmbia é um país da África ocidental que margeia o curso inferior do rio Gâmbia. Tem uma pequena extensão de litoral Atlântico e uma extensa fronteira com o Senegal por todos os lados. Sua capital é Banjul. A região foi parte do Império de Gana e do Songhai, para onde era canalizado escravos, marfim e ouro. Com a chegada dos portugueses, no século XV, o fluxo dessas mercadorias voltou-se para o Atlântico. No final do século XVI a região passou a ser zona de comércio britânica. Entre os século XVII e XVIII foi disputado por franceses e ingleses. Depois de ter sido um ponto de grande saída de escravos para a Ámerica, adotou a proibição desse negócio em 1807, devido a política britânica anti-escravagista. Em 1888 a região tornou-se uma colonia autônoma e posteriormente foi declarada colônia real. Sua independencia ocorreu em 1965. Posteriormente juntou-se ao Senegal, em 1982, formando a Confederação da Senegâmbia; desfeita em 1989. Sua língua oficial é o inglês e tem no islamismo sua principal religião.

Youssou N’Dour nasceu em 01 de outubro de 1959. É cantor, compositor, percussionista e ator senegalês. N’Dour é talvez o cantor mais famoso do Senegal. Ele foi também ministro do turismo e cultura do Senegal. N’Dour concorreu para desenvolver um estilo musical muito popular senegalês, conhecido na língua serer como mbalax. Muito popular também na Gambia, o mbalax é a fusão de ritmos ocidentais como jazz, soul, rock e múcisa latina, temperado com sabar um dos ritmos ancestrais próprios dessa região. O mbalax usa instrumentos como guitarra, teclados, sintetizadores e outros recursos eletrônicos, mas inclue tambores ancestrais como a tama, o sabar e o nder. Além disso, traz uma influência afro-arabe na forma de cantar. Cantando o mbalax, em 2011, N’Dour foi premiado com o titulo de doutor honoris causa em música pela Yale University.

A República Senegal é um país da África Ocidental, limitado pela Mauritânia, Mali, Guiné, Guiné-Bissau, pelo Oceano Atlântico e Gâmbia. Sua capital é Dakar. O país possui a peculiaridade de abrigar dentro do seu território a República de Gâmbia como se fosse uma ilha dentro do país. A costa senegalesa foi um dos primeiros territórios africanos a ter contato com europeus. Ali se estabeleceram primeiro os portugueses, que haviam dobrado o cabo Verde em 1444; depois os holandeses e, finalmente, os franceses, que em 1638 fundaram um entreposto comercial na foz do rio Senegal. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os colonizadores europeus exportaram escravos, goma arábica, ouro e marfim do Senegal. A ilha de Gorée, em frente a Dakar, foi durante séculos um dos mais importantes pontos do tráfico de escravos para as Américas. No fim do século XIX, o Senegal passou a integrar a África Ocidental Francesa, e parte dos habitantes urbanos do país obteve a cidadania francesa. Em 1946, a medida foi estendida a todos senegaleses e o país tornou-se território ultramarino da França. Em 1958, a antiga colônia tornou-se uma república autônoma e no ano seguinte, sob o patrocínio da metrópole, se uniu ao Sudão Francês (depois Mali) para formar a Federação do Mali, que se tornou independente em junho de 1960. Em agosto do mesmo ano, o Senegal rompeu seu vínculo com a federação, declarou-se independente e elegeu como presidente Léopold Sédar Senghor. A lingua oficial do país é o francês e a religião mais importante o islamismo.

O cantor e compositor Bidinte é oriundo da Guiné Bissau, um dos cantos menos conhecidos da África Ocidental. Esta ex-colônia portuguesa não tem a notoriedade musical da vizinha ilha de Cabo Verde. Bidinte canta um pouco triste, apesar de suas composições serem tão ricas como seus os vocais. Pensativo, Bidinte mistura instrumentação Ibérica moderna como violão flamenco, flauta e contrabaixo elétrico com tambores tama e chocalhos xequerê para criar um cenário rico para a sua destreza vocal. Bidinte sendo nativo de Bissau, capital do seu país origem, adotou a Espanha para viver. Os fãs de música flamenca vão gostar das suas guitarras e flautas usadas pelo compositor em “Considjo Di Garandis”. Embora a guitarra elétrica em “Ke cu Minino na tchora”, não seja realmente um reggae, é altamente reminiscente ao trabalho de Alpha Blondy, Jerusalém ou Kaya de Bob Marley.

A República da Guiné-Bissau é um país da costa ocidental de África que faz fronteira com o Senegal, a Guiné-Conacri e com o oceano Atlântico. Além do território continental, possui ainda cerca de oitenta ilhas que constituem o Arquipélago dos Bijagós, separado do continente pelos canais do rio Geba, de Pedro Álvares, de Bolama e de Canhabaque. Antes da chegada dos europeus e até o século XVII, a quase totalidade do território da Guiné-Bissau integrava o reino de Gabu, tributário do legendário Império Mali. A instalação só tem início em 1558, com a fundação da vila de Cacheu. A princípio, somente as margens dos rios e o litoral foram exploradas. A colonização do interior só se dá a partir do século XIX. No século XVII, foi instituída a Capitania-Geral da Guiné Portuguesa. Mais tarde, durante o Estado Novo de Salazar, a colonia passaria a ter o estatuto de província ultramarina, com o nome de Guiné Portuguesa. A região foi controlada por portugueses do século XVI até proclamar unilateralmente a sua independência, em 24 de Setembro de 1973. Embora reconhecida internacionalmente, tal independência não foi ratificada pelo país colonizador. O reconhecimento por parte de Portugal só ocorreu em 10 de Setembro de 1974. A Guiné-Bissau, juntamente com Cabo Verde, foram as primeiras colónias portuguesas no continente africano a ter a independência reconhecida por Portugal. Tem como línguas oficiais o português e o criolo da Guiné-Bissau. O islamismo é a religião de 45% da população. As demais pessoas são adeptas das religiões ancestrais.

2 + comentários

  • Lucas Delaqua 02/07/2012 - 9:58 am Responder

    Que beleza, ver o África Livre de volta. Welcome back Marcos!

  • Marcos Dias Coelho 02/07/2012 - 10:11 am Responder

    Espero que gostem da seleção musical

  • Deixe uma resposta