Africa Livre #08 – O Chifre da África

1 Postado por - 12/11/2012 - Audio, obailetodo, Podcasts

ÁFRICA LIVRE
seu programa de música, cultura e informações sobre as Áfricas

O Chifre da África, também conhecido como Nordeste africano e algumas vezes como península Somali, é a designação dada à região nordeste do continente africano, onde situam-se a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia. Tem uma área de aproximadamente 2 milhões de km² e uma população de cerca de 90,2 milhões de pessoas. Tal denominação decorre da similidade entre a representação geográfica pontiaguda da região e um chifre de rinoceronte. A região tem muitas referências históricas. Para além de qualquer coisa, neste pedaço da África circulou, e ainda circula, os três principais sistemas monoteístas que a humanidade conheceu; o judaismo, o cristianismo e o islamismo. Seria possível estender a narrativa sobre a história desta região indefinidamente, mas como o espaço é pequeno, vou escolher aleatoriamente apenas dois eventos ligados ao Chifre da África. O primeiro refere-se à descorberta de um dos espécimes antropóides mais antigo já conhecido, Lucy. O segundo vincula-se ao mito medieval cristão do Prestes João, o suposto chefe de um reino poderoso no oriente e possivel aliado dos cristãos ocidentais contra os infiés maometanos.

Lucy é um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelos pesquisadores Donald Johanson e Tom Gray em Hadar, no deserto de Afar, na Etiópia. A descoberta de Lucy na década de 1970 destruía ideias racistas sobre a origem do homem. Assim ficava confirmado que os mais antigos hominídeos emergiram no continente africano. Ou seja, a humanidade era monogênica – tinha uma única origem – e surgiu na África. A descoberta contrariava teses que afirmavam ser poligênica a origem da humanidade bem como ter seu lugar de emergência na Ásia. Afinal, não se admitia que o ser humano pudesse ter surgido em um continente considerado como o local dos tipos mais primitivos de raça humana. O fóssil foi denominado Lucy por causa da canção “Lucy in the Sky with Diamonds” da banda britânica The Beatles, tocada num gravador no acampamento, e por a terem definido como fêmea.

Preste João – cuja representação do período moderno ilustra este podcast – foi um mítico monarca cristão do Oriente, que correspondia ao Imperador da Etiópia. “Preste” significava padre. Dizia-se que era um homem honrado e um soberano bondoso. O reino de Preste João foi objecto de uma procura que fomentou a imaginação de gerações de aventureiros. As lendárias informações sobre o Preste João alcançaram a Europa por meio de viajantes e mercadores. Em 1487, o monaraca português D. João II enviou um emissário para investigar a localização do lendário reino, na tentativa de torná-lo aliado numa possível expedição para a Índia, em fase de planejamento. O nome do emissário era Afonso de Paiva, que morreu antes de completar a sua missão. Contudo, Pêro da Covilhã — que o tinha acompanhado até se separarem para ir fazer um reconhecimento da Índia — iria mais tarde completar a missão de Paiva. As narrativas de Pêro da Covilhã a Francisco Álvares permitiram saber muito sobre a história. Esta foi descrita em seu livro Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias.

Já deu para perceber de onde serão as atrações musicais escolhidas para este programa. Do Djibuti, Etiópia, Eritreia e Somalia foram pinçados algumas das expressões musicais mais conhecidas. Espero que depois de tanto tempo sem podcast, esse possa suprir a lacuna temporal.

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Musicas do programa:
Abdallah Leh – Dabali Sareh // Lako Gileh
Getatchew Mekurya – Ambassel // Shellela //Antchi Hoye
Bereket Mengisteab – sem título // sem título
Waaberi – Rog Rogosho // Heei Yaa Alahobalin Hoobalowa // Kafyio Kaladeri

Abdallah Abdoulkader Abbas, nascido em 1963, no Dbjouti, faleceu na França em 2007. Começou a fazer sucesso com grupo Dinkara. Abdallah Leh é uma das estrelas dos anos 1980/1990 da cena urbana do seu país. Tinha no afar seu estilo mais reconhecido, embora tenha optado por uma tendência do afro-rock nômade e tenha gravado alguns reggaes. Ele revolucionou a vida cultural no Djibuti e foi uma fonte de inspiração para a juventude. Durante anos, encarnou a imagem do país no mundo. A música tradicional afar assemelha-se a música folclórica de outras partes do Chifre da África, como a Etiópia, mas também contém elementos da música árabe. Tal estilo é oriundo da literatura oral dos afar que também é muito musical e permeada por uma variedade de motivos, desde músicas para casamentos, elogios de guerra, até vanglória.

A República do Djibuti é um pequeno país do Chifre da África, limitado pela Eritreia, pelo estreito de Bab el Mandeb, pelo Golfo de Áden, pela Somália e pela Etiópia. A capital é Djibouti. O território do Djibouti foi povoado por imigrantes procedentes da Arábia que se estabeleceram no norte, dos quais descendem os afar. Os issa, provenientes da Somália, expulsaram os primeiros da região meridional e se estabeleceram no litoral. No ano de 852 da era cristã chegaram os árabes, que controlaram o comércio da região até o século XVI. Os portugueses chegaram a região neste século, mas em decorrência de sua expansão para o Oriente, tiveram que priorizar outros objetivos. Em 1888, a França estabeleceu uma colônia chamada Costa Francesa dos Somalis, da qual Djibouti foi capital desde 1892. Em 1946, a região converteu-se em território do ultramar francês. Em 1958, os habitantes da Costa dos Somalis decidiram permanecer na Comunidade Francesa, com os votos favoráveis dos afars e dos europeus. O eleitorado issa, no entanto, manteve-se à margem dessa decisão. Em 1967, nova eleição ratificou a vinculação com a França, mas em 1977 um último plebiscito converteu o Djibouti em Estado independente. A língua francesa, juntamente com o árabe são línguas oficiais. Sua população é predominantemente muçulmana, tendo um pequeno percentual de cristãos.

Getatchew Mekurya nasceu em 1935 e é um saxofonista do jazz man etíope. Mekurya iniciou os seus estudos musicais em instrumentos tradicionais da Etiópia, como a krar e o masenqo. Mais tarde mudou para o saxofone e o clarinete. Ao atingir a adolescência, começou sua carreira profissional em 1949, na Banda Municipal em Addis Abeba. Em 1955, ele se juntou à banda do Addis’ Haile Selassie I Theatre, e em 1965 entrou para a famosa Orquestra de Polícia. Ele também foi um dos primeiros músicos a gravar uma versão instrumental de shellela, um gênero músical tradicional etíope cujo vocal era cantado por guerreiros antes de ir para a batalha. Mekurya levou a tradição shellela a sério, muitas vezes aparecendo no palco em túnica de um guerreiro com pele animal e cocar de juba de leão. Ele continuou a aperfeiçoar seu estilo shellela instrumental, até gravar um álbum em 1970, Negus of Ethiopian Sax, lançado em Philips Etiópia durante o auge do movimento Ethiojazz. Mekurya continuou a trabalhar ao lado de muitas das maiores orquestras na capital etíope, acompanhando cantores etíopes de renome.

A República Democrática Federal da Etiópia é um país encravado no Chifre da África e o herdeiro de uma das unidades políticas mais antigas do mundo. É a segunda nação mais populosa da África e a décima maior em área. O país faz fronteira com o Sudão, Sudão do Sul, Djibuti, Eritreia, Somália e Quênia. Sua capital é Adis Abeba. O Estado monárquico que ocupou o seu território por muito tempo, a Dinastia Etíope, tem suas raízes no século X a.C. Quando o continente africano foi dividido entre as potências europeias na Conferência de Berlim, a Etiópia foi um dos dois únicos território que mantiveram sua independência. A nação foi um dos apenas três membros africanos da Liga das Nações, e após um breve período de ocupação italiana, o país tornou-se membro das Nações Unidas. Quando as outras nações africanas receberam sua independência após a Segunda Guerra Mundial, muitas deles adotaram cores da bandeira da Etiópia. Adis Abeba tornou-se a sede de várias organizações internacionais focadas na África. A cultura etíope é marcada pela influência dos três grandes sistemas religiosos monoteístas; o judaísmo, o cristianismo (coopta ou ortodoxo) e o islamismo. Sua língua oficial é o amárico.

Nascido em 1938, Bereket Mengisteab é um conhecidoo compositor e cantor Eritreu. Mengisteab nasceu em 1938, em uma aldeia na Eritreia, cerca de 20 km a noroeste Asmara, a capital. Ele passou sua infância na lavoura da aldeia, onde aprendeu sozinho a tocar o krar. Assim participou nos eventos musicais que faziam parte da sua cultura rural. Ele se mudou para Asmara por alguns anos, onde suas performances musicais foram limitados a seus amigos. Em 1961, mudou-se para Adis Abeba e juntou-se ao Haile Selassie I Teatro Orchestra. Permaneceu com a orquestra por mais de uma década apresentando concertos na Etiópia, Quênia, Uganda, Tanzânia. Em 1966, se apresentou no Festival das Artes Negras mundial, no Senegal, bem como e no Jogos Olímpicos de 1968, no México. Ele gravou seus primeiros solos, durante este período, nove músicas para Philips. Ele deixou a orquestra de 1973, um ano antes de Haile Selassie ter sido deposto. Durante meados dos anos 1970, Mengisteab foi o único artista da Eritréia transmitindo no rádio com sua música krar. O uso da língua tigrinia garantiu sua popularidade. Enquanto vivia em Adis Abeba, Mengisteab e sua esposa dirigia uma loja de música. Ele formou seu próprio grupo, em Adis Abeba, Megaleh Guayla (eco da dança).

O Estado da Eritreia está localizado no Chifre da África. Faz fronteira com o Sudão, Etiópia, Djibouti e Mar Vermelho, tendo contato direto com a Arábia Saudita e Iémen. O arquipélago Dahlak e as ilhas Hanish são parte da Eritreia. Seu tamanho é de cerca de 118 000 km², com uma população estimada em cerca de 5 milhões de habitantes. A capital é Asmara. A história da terra onde, hoje em dia, localiza-se a Eritreia, é associada aos seus quase 1 000 km de litoral pelo Mar Vermelho. Do outro lado do mar, vieram vários invasores (e colonizadores), como os árabes sauditas vindo da área que hoje em dia corresponde ao Iémen, os turco-otomanos, os Portugueses de Goa (Índia), os egípcios, os britânicos e, no século XIX, os italianos. Na era da corrida das potências europeias para a África, numa tentativa de estabelecer uma base de reabastecimento para seus navios após a abertura do canal de Suez (1869), a Itália invadiu a Eritreia e a ocupou. Em 1º de janeiro de 1890, a Eritreia tornou-se oficialmente uma colônia da Itália. Em 1936, tornou-se uma província da África Oriental Italiana, junto com a Etiópia e a Somália Italiana. As forças armadas britânicas repeliram as forças armadas italianas em 1941 e tomaram a administração do pais, que havia sido criado pelos italianos, para si. Os britânicos continuaram a administrar o território sob um mandato da ONU até 1951, quando a Eritreia foi unida à Etiópia. Apenas em 1991 a Eritreia conseguiu emancipar-se depois de uma longa luta de libertação. Contudo, foi reconhecida pela Etiópia apenas em 1993. Sua população é divida pelo cristianismo ortodoxo e pelo islamismo. O Estado não tem língua oficial sendo as mais faladas, o árabe, o tigrinio e o inglês.

Waaberi foi um supergrupo musical da Somalia. A trupe foi criada por membros da Associação de Artistas de Rádio e apoiada pelo governo da Somália como parte do Teatro Nacional da Somália. Fez turnês por diversos países da África, incluindo o Egito e Sudão. Depois de um golpe de Estado em 1969, o conjunto foi rebatizado Waaberi, o que significa “Dawn Players” ou seja, músicos do alvorecer. O grupo continuou a existir como uma organização privada na década de 1990. A vocalista Maryam Mursal foi a primeira mulher a tocar jazz somali. Depois de se apresentar no festival inglês WOMAD em 1997, o grupo visitou a América do Norte em 1998, e gravou um álbum com músico egípcio Hossam Ramzy . Como grupo musical mais importante da Somália, Waaberi deu fama a muitos artistas populares para desfrutar carreiras individuais de sucesso e moldar a cara da música da Somália para os próximos anos.

A República Federal da Somália também está localizado no Chifre de África. Faz fronteira com o Djibuti, Quênia, Golfo de Aden, Iémen, Oceano Índico e com a Etiópia. Na Antiguidade, a Somália foi um importante centro de comércio com o resto do mundo antigo. Seus marinheiros e mercadores eram os principais fornecedores de incenso, mirra e especiarias; itens que foram considerados de luxos para os antigos egípcios, fenícios, micênicos e babilônios com quem o povo Somali negociava. O nascimento do Islã no lado oposto da costa da Somália, no Mar Vermelho, determinou que os comerciantes somalis que lá viviam ficassem gradualmente sob a influência da nova religião através dos seus parceiros comerciais convertidos. No final do século XIX, após a partilha do continente, as potências européias partiram com seus exércitos para o Chifre da África. As nuvens imperiais oscilando sobre a Somália alarmaram o líder dervixe Muhammad Abdullah Hassan, que se reuniu com soldados somali de toda a região e começou uma das mais longas guerras de resistência colonial. Após um quarto de século, mantendo os britânicos na baía, os dervixes foram finalmente derrotados em 1920, quando o Reino Unido usou pela primeira vez aviões na África para bombardearem a capital, Taleex. Esta ocupação durou até 1941 e foi substituída por uma administração militar britânica. O norte da Somália continuaria a ser um protetorado e o sul da Somália tornou-se uma tutela. A União das duas regiões, em 1960, formou a República Democrática Somali. A religião predominate no país é o islamismo e suas línguas oficiais são o somali e o árabe.

2 + comentários

  • Guido Barella 12/11/2012 - 9:47 pm Responder

    Marcos, em cada numero do África Livre, a aula fica mais intensa! Parabéns, música e texto de primeira.
    Abraços

    • Marcos Dias Coelho 12/11/2012 - 10:05 pm Responder

      Guido, brigadão!!

      Cara, queria uma ajuda. O podcast não tá aparecendo nos destaques, o que faço???

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