Entrevista com Fábio Fzero

1 Postado por - 19/01/2012 - Artigos, Entrevistas, obailetodo, Textos

Gerador Zero, No Step, BitBang!, Concerto para Harpa e Notebook, Mechupa, esses são alguns dos projetos nos quais Fábio Neves, mais conhecido como Fábio Fzero, esteve envolvido nos últimos anos. Para se ter idéia de quanto o Fábio produz, esse ano ele se propôs a alternar semanalmente entre o BitBang! e o No Step, ou seja em uma semana terá música nova e na outra um podcast. Uma meta ousada e que com certeza deverá ser atingida por esse produtor com 16 anos de dedição à música. Antes no Rio de Janeiro e com uma passagem por São Paulo, Fábio agora radicado em Toronto no Canadá, arranjou uns minutos de seu tempo e respondeu algumas perguntas para o Na Lupa na entrevista que você confere abaixo:

Fábio, você pode nos contar um pouco da sua trajetória, de como você começou na produçào musical e foi se desdobrando até se transformar nesse cara multi-projetos (G0, bitbang, No Step) que você é hoje?

Fábio: É uma looonga história…

Eu comecei a fazer música em 1996, quando finalmente arrumei um computador com kit multimídia. Só pra dar um contexto: drive de CD-Rom e placa de som eram raridades, a internet não existia de verdade e arquivos MP3 não tinham sido inventados ainda. Eu usava um programa chamado Impulse Tracker para DOS (o Windows não conseguia tocar áudio direito ainda) e trocava músicas com outros malucos por disquete mesmo.

O Gerador Zero só foi começar mesmo em 1999, e no começo era só eu. Quando começaram a aparecer convites para tocar ao vivo é que ele começou a se parecer mais com uma banda, mas a formação mudou várias vezes. Depois do Gerador vieram o Concerto para Harpa e Notebook e o Mechupa, que foi mais uma brincadeira com o fato de qualquer mané fazer um mash-up em menos de meia hora do que um projeto sério. Eu também participei do Efeito Coletivo, junto com as bandas John Merrick Experience, Ouvintes e Voz Del Fuego. Isso tudo foi em 2004.

A primeira encarnação do BitBang! é mais ou menos dessa época. O André Nervoso chamou o Efeito Coletivo para fazer um bloco no programa América Perdida na rádio Viva Rio. Quando a rádio fechou nós continuamos produzindo esse bloco, que acabou se dividindo em alguns podcasts – o BitBang! era um deles. Ele morreu e ressuscitou algumas vezes… O último reboot foi em 2010, e eu continuo fazendo até hoje.

Por falar nos projetos você pode detalhar um pouco mais o No Step? Ele me parece bem ousado, 1 música a cada duas semanas. Devemos esperar por linhas musicais diferentes ou você pretende se concentrar algo específico?

Fábio: No Step é um nome novo, mas de certa forma é uma continuação do que eu fazia com o Gerador Zero. Como ninguém consegue pronunciar Gerador Zero em inglês (e eu já tinha cansado do nome mesmo), procurei um nome que fosse interessante e tivesse um domínio .com ou .ca disponível. :-)

Eu estava há um tempo sem lançar nada novo (fora remixes), e aprendi com o BitBang! que a única maneira de me fazer trabalhar é na base da pressão, mesmo que seja eu mesmo me pressionando. Daí a idéia de lançar uma música a cada duas semanas, intercalando com a produção do podcast.

Eu não costumo acordar um dia e dizer “hoje vou fazer um techno” ou algo assim… A verdade é que eu nunca liguei muito para rótulos, então qualquer idéia que dê em algo interessante tá valendo.

Fale um pouco sobre o seu processo de produção musical, vi que na The Psychedelic Commute você usou sons ai do metrô de Toronto. Rola ai uma influência de música concreta (Pierre Henry, Schaeffer)? Devemos esperar mais coisas incidentais no No Step?

Fábio: Qualquer coisa que use sons ambientes acaba lembrando música concreta, mas eu nunca pensei em seguir essa linha a sério. Eu tinha feito as gravações no metrô há alguns meses e achei que elas iam ficar bem na música – simples assim. A verdade é que eu não planejo muito… as melhores coisas que eu já fiz saíram de acidentes felizes no estúdio. Eu tenho mais sons incidentais gravados, então é sempre possível que eles apareçam em produções futuras, mas não tenho planos de lançar um EP “concreto” (ainda!).

Quem são os produtores que tem lhe influenciado nesses últimos tempos? Pode selecionar 5 músicas que as pessoas DEVEM ouvir?

Fábio: A lista não mudou tanto assim desde o começo: Orbital, Kraftwerk, Chemical Brothers, New Order e Leftfield são influências eternas. As coisas mais recentes que eu posso citar são Simian Mobile Disco, Soulwax, Digitalism, Stuart Price (especialmente no Zoot Woman), Royksopp e Apparat.

Escolher essas músicas vai ser meio complicado e eu vou mudar de idéia, mas se é pra escolher uma seleção pra HOJE…

Leftfield – Song of Life
Simian Mobile Disco – Sleep Deprivation
Moderat – Rusty Nails
Chemical Brothers – Saturate
Zoot Woman – Gem

Lembro de quando você se mudou de São Paulo para Toronto e organizou um “bazar virtual” e deixou muitos equipamentos aqui no Brasil. Como essa mudança influenciou na sua forma de fazer música? Onde é melhor para você fazer música Toronto ou RJ?

Fábio: Bom, antes de tudo eu tenho que dizer que foi lucro vender o equipamento antes de me mudar – literalmente. Tudo no Brasil é ridiculamente caro. Pra você ter uma idéia, vendi um Novation Launchpad antes de viajar por 700 reais. Por aqui custa 170 dólares. Mesmo com o câmbio, é mais que o dobro do preço! Por conta disso eu não me preocupei muito com isso, não tinha razão nenhuma para me apegar a equipamento. Vendi tudo e montei um setup parecido com equipamentos melhores e gastando um terço do preço quando cheguei. A única coisa insubstituível eram os arquivos no computador, e isso eu trouxe.

Toronto é uma cidade muito musical, embora seja mais focada em rock atualmente (embora tenha uma história muito legal com house, já que está no meio do caminho entre Detroit e Nova York). A única diferença real em relação a fazer música são os preços de estúdios, equipamentos e por aí vai. Absolutamente tudo é muito mais barato por aqui – incluindo comida, aluguel, roupa…

Pra finalizar, pude ver que você está no Bandcamp agora, você pode comentar um pouco sobre o que isso tem trazido para você? (repercussão, retorno financeiro, etc)

Fábio: Bandcamp é provavelmente a melhor plataforma para lançar músicas de maneira independente atualmente. Basta uma conta no Paypal para vender músicas. Soundcloud é muito bom também, talvez melhor para divulgação por conta do sistema de comentários.

Agora, repercussão, retorno financeiro, nada disso tem a ver com a plataforma usada, mas sim com o que você faz para divulgar o seu trabalho.

Essa é uma das razões para eu estar lançando músicas do No Step com regularidade: o conceito de álbum morreu, então a melhor estratégia é lançar com frequência para criar uma base de assinantes. Os tempos mudaram… às vezes é mais importante mostrar como você está fazendo a música do que lançar a faixa finalizada. Eu sinceramente acho isso legal pacas – muito melhor do que ficar lamentando a morte do CD ou qualquer outro formato. Devo ser a pessoa menos nostálgica que eu conheço.

Se você se interessou pelo trabalho do Fábio e quer se aprofundar, esses são os sites que ele mantém, bookmarks obrigatórios para fãs de música eletrônica e produção musical:

http://fzero.ca
http://nostep.ca
http://www.geradorzero.com
http://bitbang.fzero.ca
http://www.geradorzero.com/mechupa/
http://geradorzero.bandcamp.com/album/concert-for-harp-and-notebook

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