Loudness War (ou Por que a indústria fonográfica está acabando com a arte de comprar álbuns físicos?)

4 Postado por - 18/07/2013 - Artigos, obailetodo, Textos

Não há nada mais corajoso e ousado nestes tempos de pura loucura e violência anárquica do que acreditar nas opiniões dos outros na internet, ainda mais se estamos tratando de audiofilia, que é uma espécie de clube de senhores endinheirados que gostam de torrar seu dinheiro em sistemas caríssimos que reproduzem placebo em alta fidelidade. Claro que isso é a parte mais extrema do negócio. Em geral, as pessoas que têm uma simpatia pela audiofilia – e eu sou uma delas – estão mais a fim de curtir uma música com um pouquinho mais de qualidade do que o padrão habitual gastando o que couber no orçamento, que normalmente é curto.

E se há um ponto em que os dois lados concordam é que há um câncer a ser extirpado da indústria fonográfica chamado Loudness War. Não faço ideia de quem ou de quando se cunhou o termo, mas se trata da prática dos estúdios de comprimir o som de tal maneira que ele soe razoavelmente bem em caixinhas de som ou fones de ouvido de qualidade duvidosa, mas que em qualquer outro dispositivo acima do padrão soe como uma massa amórfica barulhenta e esquisita, que depois de cinco minutos se torna algo insuportável de se ouvir, como se o inferno estivesse dando uma festa nos seus tímpanos.

Ao que parece, essa maneira de masterizar os álbuns surgiu no final dos anos 1990, na mesma época em que os MP3 distribuídos na internet começavam a corroer os suntuosos lucros das majors. Reza a lenda que um dos primeiros discos a disseminar essa prática foi o Definitely Maybe, do Oasis. As histórias também contam que isso não é de hoje. O produtor Phil Spector criou a técnica Wall of Sound e fez dela sua bandeira e nem os Beatles saíram ilesos. E as rádios sempre tiveram o costume de aumentar o som até o limite da distorção sônica tanto por questões técnicas quanto para chamar atenção dos ouvintes que zapeiam tranquilos pelas estações.

O cara aí do vídeo explica muito melhor do que eu

Mas é inútil agora apontar culpados. O estrago já foi feito, e não foi pequeno. Sempre que é anunciada a remasterização de algum álbum clássico, um frio corre a espinha do audiófilo. Nessa hora, as discussões nos fóruns especializados se encerram e se inicia um clima de linchamento e selvageria e pessoas de bem se revelam sociopatas em potencial. Lembranças terríveis da remasterização de 2000 do All Things Must Pass, ou da discografia de 2003 do AC/DC vêm à tona, viram combustível para o que foi um dia um cidadão exemplar e cenas lamentáveis se seguem.

Óbvio que nem sempre é assim. Há boas exceções rondando as cercanias, que começaram a surgir principalmente no final da década passada. Um bom exemplo foi o relançamento em CD da discografia dos Beatles e do Neil Young, ambas em 2009, e do Pink Floyd, em 2011. A mesma coisa aconteceu com as edições de colecionador do Leonard Cohen. E as novas remasterizações dos discos do My Bloody Valentine, em 2012, se não trouxeram grandes novidades também não sofreram nenhum estrago.

A questão é que a Loudness War aos poucos começou sua metástase também nas edições em vinil. É fato que, tecnicamente falando, os CDs são superiores aos LPs. Porém, os vinis tem alcance de frequência gigantesco – na teoria pelo menos – enquanto os discos digitais têm um limite de 44,1 KHz. Por isso, era bastante comum haver duas masterizações de um mesmo disco: um para CDs e outro para vinis, o que dá a impressão dos bolachões terem naturalmente uma qualidade muito superior.

Na verdade, o que ocorre é que as masterizações aproveitavam melhor o alcance dinâmico do vinil, enquanto que no CD este é digitalmente comprimido. Isso mudou de uns tempos pra cá, quando as gravadoras viram que se gasta menos transferindo a matriz digital de um álbum direto para o vinil, fazendo com que a música soe igual ao CD, só que com chiado.

O porquê da indústria fazer esse tipo de suicídio programado, na tentativa de exterminar o único nicho que ainda consome música e claramente está disposto a pagar caro por isso, é um enigma. A juventude de hoje em dia, e nesse grupo incluo o pessoal da minha idade que pegou a pujança dos anos 90, já não compra CD como antes, e as gerações mais novas certamente nunca gastaram um puto com música.

Pode ser que a salvação esteja no streaming, em locais como Spotify, Rdio e no novo iTunes Radio, mas desprezar consumidores de raiz seria como abandonar os fãs de cinema só porque o Netflix dá mais lucros. Apesar de que há serviços como o HD Tracks, que oferece músicas digitais remasterizadas em alta resolução, mas seu preço fora da realidade mostra que seu público alvo são os audiófilos ricos e seus sistemas de som Hi-Fi que custam um carro zero. Pobres entusiastas como eu apenas querem que as majors façam o feijão com arroz dos anos 1980 e de meados dos anos 90 com suas masterizações com mínima compressão e um ou outro bônus para fazer a compra valer a pena.

Eles podem argumentar que o público de hoje gosta de ouvir música desse jeito e estão felizes assim, mas esse é o mesmo argumento da indústria do cinema: as grandes produções porcarias batem recordes de bilheteria, logo o pessoal deve gostar dessa porcaria. Ora, com um pouquinho de marketing, até um filme sem script consegue público. Pois é óbvio que as pessoas preferem gastar seu dinheiro naquilo que elas conhecem, mesmo que só de orelhada, do que em algo que nunca ouviram falar. E a indústria sabe disso. E mais do que fazer filmes, ela sabe como fazer dinheiro.

O fato é que a mudança gradual na qualidade das remasterizações dos últimos anos pode ser o início de alguma coisa. É verdade que com as vendas em queda, as gravadoras precisavam se apoiar em alguma boia e enquanto a música digital for tratada como coisa do demônio, dar ouvidos aos nerds por música parece ser a opção mais rentável. Pelo menos até aparecer alguma outra mina de ouro para ser explorada, diria alguém mais realista.

Para ler mais sobre o Loudness War: http://www.pleasurizemusic.com/en/

Igor é jornalista, são-paulino e comunista nas horas vagas.

2 + comentários

  • Lucas Delaqua 18/07/2013 - 6:53 pm Responder

    classe A. Audiofilia e fotografia são dois hobbies que dão trabalho de manter….

  • Paul Guitar 12/04/2016 - 11:11 pm Responder

    Perfeito! Infelizmente a alta de noção e despreocupação da qualidade sonora, e a pirataria da maioria, deixou com que a indústria da musica tomasse os rumos que tomou com a “Loudness War”, uma coisa ainda não mudou, as pessoas continuam gostando de ouvir musica.

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