Mashups de elegância

0 Postado por - 27/12/2011 - Música, obailetodo, Video

O mashup é um gênero musical que se baseia na mistura de elementos de duas ou mais músicas para criar uma nova canção.  O sucesso do gênero se deve em grande parte a capacidade que tal mistura tem de suscitar no ouvinte tanto a familiaridade quanto a estranheza.

Mutantes: As melhores histórias de ficção científica. Um subtítulo que não fica longe da verdade.

Outra vantagem do mashup é a mesma que Robert Silverberg, escritor de ficção científica e o autor de O Cair da Noite, junto com Isaac Aasimov diz em sua coletânea de contos Mutantes (publicada no Brasil pela Melhoramentos, e infelizmente, como a maioria dos bons livros do gênero “esgotada no fornecedor” sem previsão de retorno): o bom escritor (e nesse caso o bom produtor de mashup) é alguém capaz de reconhecer uma boa idéia não explorada no texto de outra pessoa e desenvolvê-la e torná-la sua. Robert Silverberg fez isso quando escreveu O Homem Invisível, um conto sobre a invisibilidade imposta como uma punição legal (no conto, o protagonista, acusado do crime de frieza é condenado a receber uma marca na testa e ser ignorado por todos que as reconhecem). Esse conto foi baseado numa frase de Jorge Luis Borges em A Loteria da Babilônia: “Durante um ano da Lua, fui declarado invisível: gritava e não me respondiam, roubava o pão e não me decapitavam.” Como Silverberg aponta, a frase no conto de Borges é meramente um embelezamento narrativo numa história que trata de um assunto completamente diferente.

Embora o mashup tenha todo esse potencial, como a maioria dos movimentos culturais nascentes, ele se concentra em geral no que é popular, em músicas dançantes e em referências fáceis de processar. No Brasil, em especial o mashup é uma forma de arte dominada pelo funk carioca, por uma indecência malemomente pelo qual o brasileiro é conhecido e pela mistura do pop internacional com o as músicas top das paradas nacionais.

 

André Paste, o Midas da música trash brasileira.

Vale dizer, esses esforços podem ser muito agradáveis de se ouvir ou dançar, e alguns deles por meio do mashup, se não elevam os elementos do qual a música é composto para um patamar erudito, ao menos emprestam uma qualidade que os originais não possuiam por meio desse casamento das referências. Esse é o caso de artistas como o jovem André Paste, que se utiliza das músicas de mais baixo calão do funk carioca e de gêneros musicais brasileiros que há muito haviam sido consignados ao esquecimento devido ao embaraço que causa, como a lambada, para criar uma música nova, moderna, divertida e que faz até o ouvinte mais sério querer “chacoalhar o esqueleto”. Dessa arqueologia do mau gosto e do brega resulta algo de que não se pode ignorar a competência.

No entanto, é uma pena que o Brasil seja de tal forma escravo do ritmo. A MPB em suas várias encarnações sempre dialogou bastante com a poesia, com sentimentos complexos e com ritmos mais suaves. Ainda não surgiu um produtor de mashups com um interesse em resgatar o samba antigo e misturá-lo com o hiphop contemporâneo, nem muitas outras felizes combinações que nossa riqueza musical permite.

As coisas não são tão diferentes na cena do mashup internacional, mas há um produtor que todos os amantes da boa música precisam conhecer.

Phil Retrospector, provando que o maior produto de exportação do Reino Unido ainda é a melancolia.

O irlandês Phil Retrospector é intitulado o “mestre indiscutível da melancolia”. Sua característica é buscar explorar emoções e não as batidas de seus mashups. Seus mixes incluem poetas como Charles Bukowski e artistas musicais como Sigur Rós, Beatles, David Bowie, Muse, Elvis e Pixies. Outro destaque de suas obras são os clipes, que como o artista audiovisual que ele se apresenta são feitos com muito esmero e incluem elementos Laranja Mecânica e Snoopy, numa outra camada de significado que vai além da música.

A contrário da maioria dos mashups que se apoia na enorme popularidade de seus componentes para extrair a simpatia do ouvinte, Phil Retrospector  com frequência se utiliza de gemas preciosas que não tiveram seu devido lugar ao sol, mas as quais ele examina para, como Silverberg, esculpir formas que estavam contidas desde o ínicio nelas mas que não haviam sido expostas para o ouvinte.

Sem mais delongas, uma pequena seleção de clipes de Phil Retrospector:

Uma combinação sentida e bastante orgânica do hit de Duffy com o clássico de Elvis, essa é talvez uma das músicas mais populares de Phil Retrospector. O interessante dessa combinação é que nela Phil Retrospector encontra um arrependimento não expresso na música In the Ghetto de Presley, e ele o trás à tona por meio da triste música de Duffy.

Sigur Rós e This Mortail (essa última tocando uma música dos etéreos Cocteau Twins), somada as estranhas imagens criadas para exibição durante apresentações ao vivo, dão um ar alienígena a composição.

A música de Muse exacerba a rara doçura de Bluebird do “poeta bastardo” Charles Bukowski, e Bob Dylan, dialoga com ele com sua poesia folk. Retrospector é muito feliz em usar a expectativa do ouvinte para o trabalho de Bukowski e subvertê-la. O site Audioporn Central falou com muita propriedade sobre essa composição:  “Palavras não são necessárias quando a tristeza é assim tão bonita”.

A voz intensamente masculina de Leonard Cohem conversa com o coral búlgaro Le Mystere de Voix Bulgares e são apoiados pela música de Muse e se tornam o pano de fundo para poéticas imagens de influência japonesa.

A combinação de Beatles e Coldplay talvez seja a que mais se aproxima do trabalho extremamente pop de seus colegas de trabalho, mas ainda assim ele infunde a música do seu estilo característico.

Mais Phil Retrospector:

Phil Retrospector’s Bootlegs Made 4 Walking (site oficial com informações, notícias, mp3, seleções musicais de outros artistas, etc.)

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