Negra Melodia #01 – Chega pra somar no groove

0 Postado por - 08/04/2013 - Audio, obailetodo, Podcasts

“Um, dois e lá vão os três/ Negra melodia que vem do sangue e do coração”, canta Jards Macalé na música Negra Melodia. Canção também magistralmente interpretada por Itamar Assumpção. Já ouviram? “Forget your troubles and dance/ Forget your sorrows and dance/ Forget your sickness and dance/ Forget your weakness and dance”. Como um mantra, Jards parece convocar as divindades do corpo para encantar a vida e transcender os problemas. Era isso: “Negra Melodia!” O nome que sintetizava em poesia, música e ideias o programa que iniciei na Rádio Muda (88,5 FM).

O programa nasceu de minha paixão por música em geral e pelo gosto de compartilhar com meus amigos os garimpos de músicas de diferentes partes do mundo. Nessa seara, a diversidade musical da diáspora negra tornou-se, nos últimos anos, parte expressiva de minhas buscas em sites, sebos e lojas de discos. Quando meu bróder – e agora vizinho de LUPA – DJ Banto, começou a apresentar o programa África Livre, na Rádio Muda (sábado às 19hs), pensei: “por que não fazer um programa eclético e experimental, que viajasse pelos inúmeros caminhos que os africanos fizeram pelo mundo, fundindo suas línguas e culturas com a de outros povos?” A ideia ficou batucando na minha cabeça até que tive o prazer de concretizá-la.

O que mais me chama atenção no imenso oceano da musicalidade negra – o blues, o rock, o hip hop, o jazz, a cumbia, o reggae, o afrobeat, o soul e os inumeráveis amálgamas de gêneros e estilos – é o modo como, em diferentes sensibilidades, culturas e temporalidades, há uma reiterada evocação de sentimentos intensos como espiritualidade, descrença, raiva, inocência, ironia, utopia, liberdade, amor, felicidade, saudade…

Sem pretender fazer um apanhado integral dessa musicalidade, o programa é voltado para os artistas que geralmente não tocam nas rádios comerciais e cuja obra merece ser divulgada. Se há um fio que une esses diferentes estilos na programação, é justamente o coração que alguns artistas derramam em cada canção, seja no trovão da voz de Janis Joplin e Otis Redding, seja no sussurro do canto de Nelson Cavaquinho e de Sérgio Sampaio, até o sax de virtuoses como Charlie Parker, Pixinguinha e Jonh Coltrane. Há, nesses artistas, uma busca por algo que o verbo cotidiano não alcança, mas a música tão bem expressa.

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Download – Negra Melodia Vol 1

Tá nas ruas, tá alma que se move

Hip Hop, afrobeat, ethio-jazz, afro-reggae, soul de diferentes latitudes e poesia; berimbau, guitarras, experimentações eletrônicas e percussões; música brasileira de hoje e de ontem. Conexão Brasil, Estados Unidos e Cuba. A primeira mix do programa, Chega pra somar no Groove, reúne músicas que celebram o direito de lutar, de festejar, amar e transcender. Confira as canções e os artistas desta edição:

Gwyra Min – presente no disco Civilização & Bárbarie (2007), canção do compositor, percussionista e produtor musical argentino Ramiro Mussoto. Na canção intercalam-se o cântico de crianças da aldeia guarani Tenondé-Porã, o discurso do sub-comandante Marcos, levadas de afro-reggae e berimbau. “Argentino, porém baiano!”, como diria Lenine, Mussoto viveu no Brasil por décadas, onde aprendeu diversos ritmos brasileiros. O percussionista acompanhou vários artistas brasileiros, com Lenine, Caetano, Gil, Daniela Mercury, Paralamas do Sucesso, entre outros.

Cinco Doces – canção presente no álbum Bahia Fantástica (2012), segundo disco do músico, compositor e cantor Rodrigo Campos. O CD marca uma nova fase na carreira do artista. Se no primeiro e aclamado disco São Mateus Não é um Lugar Assim tão Longe (2009), o samba era a estética predominante e as letras destilavam histórias de amizade, morte e lirismo do cotidiano vivido pelo artista em São Mateus, periferia de São Paulo; Bahia Fantástica explora novos texturas e sons. Há a presença marcante do afrobeat e do soul de Curtis Mayfield. Tudo isso decantado numa estética peculiar. As letras, por sua vez, são mais sucintas, menos realistas e mais imagéticas. O álbum nasceu a partir de composições criadas sob o impacto de uma breve viagem à Bahia, conta Rodrigo. O Fantástico do título alude tanto à Bahia geográfica, quanto a um território metafórico, íntimo e poético. A Bahia, às vezes, é também a morte; ou, em algumas canções, simplesmente uma personagem. Veja entrevista com o Rodrigo.

Pra Mulatu – nessa faixa do álbum Memórias Luso/Africanas de 2011 de Gui Amábis, participam Criolo (voz), Marcelo Cabral (baixo acústico) e Maurício Alves (percussão). Mais conhecido como produtor de trilhas sonoras e discos, Amábis chamou para esse disco de estreia, artistas como Tulipa Ruiz, Céu, Curumim, Tiganá, Lucas Santtana e Siba. Este álbum e o recém-lançado Trabalhos Carnívoros (2012) estão disponíveis no site do artista para download gratuito. Vale a pena conferir aqui.

Bass do Tambô e O mundo (panela de pressão) – são duas canções do mais recente disco Sintoniza Lá (2012), de Bnegão e os Seletores de Frequência. Para quem deseja conhecer mais a obra do grupo, este disco e o anterior Enxugando Gelo (2003), Estão disponíveis para download aqui.

Samba Enredo – música de Itamar Assumpção presente no álbum póstumo Pretobrás II – Maldito Vírgula de 2010. Nesse mesmo ano, a discografia completa de Itamar foi remasterizada e lançada no box Caixa Preta, pelo Selo SESC. Esse lançamento abrange também dois álbuns inéditos: o já mencionado Petrobrás II – Maldito Vírgula e o Pretobrás III – Devia ser proibido; o primeiro produzido por Beto Villares; o segundo, por Paulinho Lepetit. Estes discos póstumos vieram a lume a partir de fitas originais gravadas a voz e violão por Itamar. Quando nos deixou, em 2003, Itamar almejava lançar uma trilogia de discos, iniciada com o lançamento de Pretobrás – por que que eu não pensei nisso antes? A Caixa Preta realiza a trinca projetada pelo genial artista e projeta Itamar para cada vez mais perto de nós.

Distinto – música presente no CD El Kilo (2005), terceiro álbum do grupo de rap cubano Orishas. O trio ficou mundialmente famoso a partir de 2000, com o lançamento do primeiro disco A lo Cubano, em que iniciam a consagrada fórmula de fundir música tradicional cubana com o rap, reggae e outros ritmos. As letras do Orishas abordam questões como o racismo, identidade, as dificuldades da vida em Havana, entre outros temas.

Conexão Alto Vera Cruz Havana – música de Renegado, rapper de Belo Horizonte, em parceria com os cubanos Alayo e Cubanito. A faixa, presente no disco Do Oiapoque a Nova York (2008), mescla batidas de hip hop e ritmos cubanos.

A Vida Em Seus Métodos Diz Calma e Kilariô – aqui duas faixas repletas de soul verde amarelo do cantor e compositor Di Melo, do álbum homônimo, lançado em 1975. A obra desse artista ganhou visibilidade mais recentemente a partir do filme Di Melo – O imorrível.

Cirandar – faixa do disco Seu Jorge e Almaz, lançado em 2010. Almaz é Seu Jorge (vocal), Antônio Pinto (baixo) e os músicos da Nação Zumbi – Pupillo (percussão) e Lúcio Maia (guitarra). Nesse disco de estreia, o repertório é composto por músicas de Nelson Cavaquinho, Vinícius de Moraes, Michael Jackson, Tim Maia, Jorge Ben, Roy Ayers.

Desengano da Vista – canção do percussionista e compositor Pedro Santos, o Sorongo. Ouvimos, aqui, um versão feita pela combo paulistano de afrobeat Bixiga 70. O grupo disponibilizou o álbum de estreia da banda, BIXIGA70 (2011).

Papai Oxóssi – composição de Moraes Moreira e Davi Moraes presente no primeiro disco solo de Davi Moraes, Papo Macaco lançado em 2002.

Cristina – faixa do disco de estreia do cantor e compositor Tim Maia, lançado em 1970.

Blacklash Blues (live) – acabamos esse setlist com um registro ao vivo de Nina Simone, presente no disco Nuff Said! (1968). Backlash Blues é um poema de Langston Hughes – poeta negro norte-americano –, integrante do movimento Harlem Renassaince. É uma letra que capta bem o espírito de luta pelos direitos civis dos negros estadunidenses, ao longo dos anos 1960.

E assim começa nossa viagem musical por aqui. Boa audição. É prazer participar do grupo de colaboradores do NA LUPA. Saravá, novos vizinhos de site: Lucas Delaqua, Guido Barella, Julio Monteiro, Felipe Guaraldo, Victor Delaqua, Oazel Laranjeiras, Taric Fioravanti, Hugo “Blaster” Mir-Valette (França), Lucas Martini e Marcos Coelho.

Negra Melodia vai ao ar aos domingos das 18 horas às 19 horas e pode ser acompanhado também pelo site da Rádio Muda, ao vivo, em Radio Muda. Apreciem.

3 + comentários

  • Marcos Dias Coelho 08/04/2013 - 8:45 pm Responder

    Vixe! Muito massa!! Vamos curtir mais um bocadinho da riqueza musical da afro-humanidade… Um programa irmão do Africa Livre. Bem vindo, Vine.

    • Vine 08/04/2013 - 10:53 pm Responder

      Valeu, Marcos. Obrigado, Lucas. Pelo help pra subir o podcast.

  • Bruna 09/04/2013 - 1:43 pm Responder

    Show de bola Vine!

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