O fisl não é uma disneylândia

8 Postado por - 16/07/2013 - Artigos, obailetodo, Textos

Vou para Porto Alegre, para o Fórum Internacional de Software Livre (fisl), desde 2003 – a terceira edição – e embora não tenha conseguido ir em todas as edições acho que o vi passar por diversas fases. Não sei exatamente como encaixar o fisl deste ano, o #fisl14, numa dessas fases, mas gostei do que vi.

Não foi o maior fisl, nem o mais relevante, nem o mais cheio de estrelas, nem o mais impactante para a política ou para a tecnologia. Também não foi o das maiores festas, nem o dos rolês mais cachaceiros por Porto Alegre – sim, porque o fisl também tem disso, se você conhecer os malucos certos. Mais foi muito bom, muito sólido, com muito conteúdo e, ao mesmo tempo que deve ter sido o com menos tretas que já acompanhei se afirmou como um evento de tecnologia politicamente bacana. O destaque foi o que, para mim, o torna um evento especial: lá não está o povo do hype, estão os caras que te fazem ver em que direção lutar para garantir ou para afirmar uma internet e uma tecnologia que sejam democráticas e inclusivas.

Coisa de nerd comuna? Eu sei, aceito. Mas por um tempo o slogan dos caras já foi “Socialmente justo, tecnologicamente viável e economicamente sustentável”, ou seja, não sou só eu.

Estive envolvido com o Workshop de Software Livre – meio que o bunker mais acadêmico do evento, onde nós das humanas agoras estamos arrumando um espaço – e não deu para acompanhar muito. Mas destaco duas coisas.

DRM no HTML5. Sabe esse YouTube massa, de onde você baixa disco completo daquela banda que você curte, ou aquele documentário louco que algum maluco legendou? Tá pra acabar. Google, Microsoft e Netflix se aliaram para tomar de assalto o HTML5 e enfiar como padrão o famigerado Digital Restrictions Manager, que automatiza o bloqueio de conteúdo protegido por direitos autorais. Atualmente o Google gasta um tempo respondendo a requisições da indústrial do direito autoral e caçando conteúdo que eles indicam como pirata. Com o DRM esse processo se automatiza e quem faz o gerenciamento são os robôs a serviço das majors monopolistas. Meu conselho? Informe-se sobre isso e entre na luta. A Free Software Foundation tem um bom site sobre isso mas é preciso produzir informações em português e digeríveis pelo público: http://www.defectivebydesign.org/. E baixe o que puder e mantenha os torrents ativos.

A outra coisa bacana que queria comentar tem a ver com as fases do fisl que disse que acompanhei. Primeiro acho que teve a fase Fórum Social Mundial, em que pra mim o fisl se misturava ao evento anti-globalização e entrava numa mesma frente de combate ao neoliberalismo e à Microsoft. Depois veio a fase Cultura Livre, em que as licenças Creative Commons se tornam populares e o pessoal do Minitério da Cultura vai meio que subvertendo a ideia clássica de cultura como produto e começa a falar em compartilhamento. Junto tem os “ponto gov”, a ida de muita gente do fisl para o governo, para tentar implantar o software livre na máquina estatal. Depois vem a reação do open, o pessoal business de araque que rejeita o discurso mais ideológico e acha que vai ficar rico. Aí o Google finge que é amigo. Então chegam as big corps e a a área de exposições fica parecendo um salão do automóvel.

Mas a gente resiste, continua lá. Nos corredores dá para encontrar caras como o prof. Pedro Rezende, uma dessas figuras geniais e obstinadas, com uma conversa que parece teoria da conspiração, mas você anota tudo e pá!, três ou quatro anos depois vaza alguma coisa pelo Wikileaks ou o Snodem abre a boca e tá lá, ele já tinha dado todas as dicas do que estava rolando. E num outro ano aparece um Lula, que faz um discurso genial, liga todas as pontas e ganha todo mundo. Ou os malucos da organização peitam todo mundo e trazem os caras do Pirate Bay e você pensa: pô, o fisl é foda!

Ainda assim… o pique salão do automóvel já estava deixando um travo amargo, não só no sentido comercial, de haver luzinhas piscantes e estandes da Globo/Google demais, mas no sentido machista, de assédio mesmo. Este ano o fisl implementou uma política anti-assédio, em que claramente se posiciona:

não toleramos nenhuma forma de assédio ou desrespeito aos participantes do evento. Imagens e linguagem de caráter sexual discriminatório não são apropriadas para o FISL. Participantes que violarem este código de conduta serão convidados/convidadas a se retirarem do evento, sem direito à reembolso do valor da inscrição. (Veja o resto aqui http://softwarelivre.org/fisl14/o-evento/politica-anti-assedio)

Parece pouco, mas o ambiente da tecnologia é tradicionalmente machista, às vezes de um jeito sutil, às vezes de um jeito ofensivo. Nerds não são bons em fazerem piadas mas tem aquela falta de noção de continuarem tentando, quase sempre apelando pro caminho mais “comum”, ou seja, o do preconceito. Multiplicam-se casos internacionais com relação a isso e felizmente muita gente tem se indignado e chamado a atenção.

O resultado foi que neste ano havia muito mais mulheres circulando e participando. E não as objetificadas, aguentando com sorriso de plástico as investidas desajeitadas nos estandes. A Valerie Aurora, da Ada Initiaive, organização que incentiva as mulheres a participarem no mundo da cultura e da tecnologia livres, deu palestra – que eu não vi, mas a @melissawm me disse que foi massa. E, poxa, este foi o ano que o John Maddog Hall, talvez a celebridade do software livre a participar mais vezes do fisl (tipo todos os anos), saiu do armário. Então viva a diversidade no software livre!

Pra fechar: leia sobre o fisl, procure os vídeos da TV Software Livre. Todo jornalista de tecnologia deveria fazer da ida ao fisl sua peregrinação anual. Escarafunchar a programação, abrir os ouvidos nos corredores, trocar cartões com os ponto gov, beber uma cerveja e comer um churrasco com hackers… Se a Campus Party parece uma Disneylândia, com seus Mickeys e Patetas, com muito hype e downloads em tera, o fisl é como um rolê nos estúdios da Universal. Tem lá a música incessante, os passeios em 6D e você sendo atacado pelo King Kong, mas o que vai te deixar pirado é ver de perto o Bates Motel.

esse dia foi massa

PS: Escrevi um mestrado e um doutorado sobre software livre (o doutorado fala bastante sobre o fisl). Para quem se interessar estão na biblioteca digital da Unicamp: http://cutter.unicamp.br/document/?code=vtls000349663 (mestrado); http://cutter.unicamp.br/document/?code=000477515 (doutorado)

3 + comentários

  • Lucas Delaqua 16/07/2013 - 9:11 am Responder

    Muito bom o artigo Rafael, seja bem vindo. Agora vou te falar, esse lance aí do DRM no html5 é uma das maiores jogadas de trusted computing que já vi. Preocupante demais.

  • Miguel Trindade Jr 16/07/2013 - 10:45 am Responder

    Parabéns pelo artigo! Muito bem escrito. Realmente esse lance do DRM é algo que devemos nos preocupar. Segue um texto publicado no TheGuardian: http://www.guardian.co.uk/technology/2013/jun/06/html5-drm-w3c-open-web

  • […] o motivo é nobre. Em tempos onde querem colocar DRM até mesmo no html5, como nos alertou o Rafael, tudo cuidado é […]

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