SHH#20: Temple of Sample – As raízes do Cypress Hill

2 Postado por - 01/04/2013 - Artigos, Audio, obailetodo, Podcasts, Strange Half-hour, Textos

[Contém o Strange Half-hour #20 – Temple of Sample]

Aproveitando o podcast do Oãzel que trouxe vários clássicos da década de 90, aproveito esse espaço para falar sobre um dos meus álbuns de rap americano favorito dessa época, o Temple of Boom do Cypress Hill. Recheado de músicas cravadas em timbres sombrios, o álbum enfilera diversos hits.

Lançado em 1995, o terceiro álbum do grupo foi coroado com disco de platina pelo seu sucesso nas vendas. Suas batidas mais tranquilas o diferenciaram dos álbuns anteriores do grupo. Com as rimas em uma pegada dark, B-Real lapidou uma das pérolas da década.

O álbum teve participações de grosso calibre como Wu-Tan Clan, RZA e U-God. Além da boa recepção pela mídia especializada, o público gostou bastante da sonoridade, músicas como Illusions, No Rest for The Wicked, Boom Biddy Bye Bye e outras chegaram a alcançar as rádios comerciais impulsionando o grupo a alcançar o terceiro lugar da Billboard naquele ano.

Aqui vou me propor a fazer algo diferente, ao invés de falar sobre o álbum quero tomar o foco para as músicas que deram origem aos samples usados para criar esta obra. Como no hip hop da época o uso de samples era mais regra do que exceção, no Temple of Boom as coisas não foram diferentes. Dj Muggs, que foi produtor, arranjador e mixou o álbum, buscou jóias dos anos 60 e 70 para criar as bases nas quais B-Real e Sen Dog soltaram suas rimas.

Para deixar essa leitura mais agradável, que tal soltar o play e ouvir as originais?

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Strange Half-hour – Session 20 – Temple of Sample

A primeira música do álbum é “Spark another Owl”, o começo dela já é sinistro mas não era nenhuma novidade. Em 1974, Azar Lawrence já o havia criado e usado em sua música  “The Beautiful and Omniprescent Love”, um jazz psicodélico de 10 minutos, uma viagem tão bela e esquisita como a própria capa de seu álbum “Bridge into the new age”.

Logo depois dos primeiros segundos do Azar Lawrence, começam os beats inspirados em “Get Out of My Life, Woman” em versão do The New Apocalypse, um clássico do breakbeat gravado em 1967 no álbum Stainless Soul. Aliás essa música é tão foda que foi usada de inspiração em outra música do álbum, mas a gente já chega nela mais pra frente.

Seguindo o jogo temos “Throw Your Set in the Air”, a segunda música do álbum. Nas inspirações temos diretamente de 1968, “Life Could” da banda Rotary Connection, um soul psicodélico vindo diretamente dos porões da Cadet em Chicago. Ainda na mesma música temos o sample de “The Sorcerer of Isis” de Power of Zeus, é nesse rock progressivo dos anos 70 que mora o beat.

Na terceira música do Temple of Boom, temos “Stoned Raiders”. Fiquei surpreso que a referência única estava em um dos LPs que eu herdei da minha mãe. “Hydra” é de 1975, do álbum “Feels so Good” de Grover Washington Jr. e arranjada por Bob James. Aí é Motown na veia meu amigo, se adicionar uma guitarrinha com wah-wah virava trilha sonora para pornô oitentista, suíngue malandro.

Quarta música, uma das minhas favoritas do álbum, “Illusions”. O começo esmagador e esfumaçado tem sua origem em “Las Vegas Tango” de Gary Burton, também de 75 (caralho hein, que ano bom pra se pesquisar samples). Depois dessa bela cama vem a primeira referência dos anos 80, “9MM Goes Bang” da Boogie Down Productions, essa é gangsta de primeira, sente um pedaço da letra:

Me knew a crack dealer by the name of Peter
Had to buck him down with my 9 millimeter

Essa pérola que tem outros versos como “So I put my 9 millimeter right between his eyes / Looked at his potnah and both of them were dead” vem do álbum “Criminal Minds”, produzido em 86 pelo gênio do hip hop KRS-One e Scott La Rock, se você não conhece KRS-One nunca cantou “Fuck Police” na sua vida.

“Killa Hill Niggas” é próxima música do álbum e a que também contou com as participações especiais que falei lá no começo do texto. De sample nessa música tem “90% of Me Is You” da Gwen McCrae (1974), guitarrinha R&B de primeira cheia de efeitos espaciais, como manda o figurino.

Na sequência, outra das favoritas, “Boom Biddy Bye Bye”. Lembra que eu havia dito que “Get Out of My Life, Woman” havia inspirado mais de uma música? Pois é, aqui está. Porém dessa vez a versão que foi sampleada é do Iron Butterfly, banda de rock psicodélico que lançou essa música em 1968 em seu álbum Heavy.

Além de “Get Out of My Life, Woman” outro sample usado foi “Just Rhymin’ With Biz” do Big Daddy Kane, essa é mais uma referência oitentista, visto que essa música saiu no Long Live the Kane, o primeiro álbum do cara em 1988. Se você não conhece, faça um favor e escute esse disco pelo menos uma vez, muita gente sampleou coisas dali.

Vamos agora para “Make a Movie”, o começo você deve saber da onde veio, aliás você TEM que saber. Segundo o Samuel L. Jackson essa foi a frase que ele mais repetiu em toda sua vida, trata-se do trecho do Pulp Fiction em que Marcellus Wallace (personagem do Samuel) cita uma passagem da bíblia antes de meter bala nos caras. Ezequiel 25:17 na verdade não tem muito a ver com o que ele fala, mas o texto é poderoso por si só:

Ezekiel 25:17? “The path of the righteous man is beset on all sides by the iniquities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who in the name of charity and good will shepherds the weak through the valley of darkness, for he is truly his brother’s keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know my name is the Lord, when I lay my vengeance upon thee.”

A bala come pra todo lado e começa “Make a Movie” que na verdade mais parece uma uma versão do reggae “Money Move” feito por Barrington Levy em 1983.

Voltamos para o Temple of Boom, música 9, “Killafornia” e logo vamos ver que os samples daí vieram de “Pacified” de Rita Jean Bodine. A música foi lançada em 1974, no álbum “Sitting On Top Of My World” e seu loop de bateria foi usado em outras música do Cypress Hill e de outros artistas também.

Em “Strictly Hip Hop” vemos outra referência curiosa, a música “Repent Walpurgis” de 1971, gravada pela banda britânica de rock progressivo Procol Harum. Pura viagem de quem deve ter convivido com cogumelos nos anos 60.

Fechando esse áudio-estudo com a última música do álbum, “Everybody Must Get Stoned”, temos o autosample “Stoned is The Way of Walk” do próprio Cypress Hill. Além disso podemos notar a grande inspiração para essa letra em “Rainy Day Women #12 & 35” do grande mestre Bob Dylan.

Espero que tenham gostado desse passeio pelas músicas que originaram esse clássico do hip hop. Esse estudo (bem preguiçoso) não teve a intenção de esgotar todos os samples utilizados e muito menos de reproduzir o álbum. Apenas quis mostrar que é sempre bom ver que podemos aprender muito sobre música e sua história quando buscamos as origens daquilo que gostamos.

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