Undertopia #31 – 10 de março de 2014

1 Postado por - 14/03/2014 - Audio, obailetodo, Podcasts

Undertopia é um programa de música alternativa, destinado a quem gosta de som com um pouco de papo furado e sem preconceito. Os estilos musicais incluem: gótico, punk, ethereal, new age, darkwave, technopop, electro, EBM, neoclássico, enfim, todo que possa ser bom e possa ser classificado como alternativo.

Semanalmente, às 2as feiras, um programa inédito vai ao ar pela rádio Enter The Shadows, com reprise aos sábados às 12:30hs.

O Na Lupa amplia o foco e prolonga a vida do programa, hospedando os arquivos para quem não teve a chance de ouvir, ou para quem quer ouvir de novo.

Para mais informações, curtam a página do Undertopia no Facebook ou mandem e-mail para programaundertopia@gmail.com.

 

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Undertopia 31

Não dá realmente pra saber o que leva as pessoas a se aproximarem, uns podem dizer que é empatia, outros diriam que é por afinidades, mais radicais até mesmo argumentariam sobre predestinação ou espiritualidade. Undertopia #31 é sobre a amizade e seus frutos de alegria e intimidade.

O texto que acompanha o programa de hoje é coerentemente uma colaboração que pedi ao meu amigo Julio.

Um dos meus autores favoritos de ficção científica, Robert Silverberg, fala sobre como um bom autor é capaz de encontrar uma ideia perdida no meio do texto de outro escritor e resgatá-la e transformá-la em algo completamente desenvolvido. No caso dele, ele encontrou uma frase que não era mais do que um floreio no conto “A loteria da Babilônia” do Jorge Luís Borges, sobre a aplicação da pena de invisibilidade por lei, e fez todo um conto sobre isso, sobre um homem condenado a ser ignorado por ter cometido o crime de frieza, e sobre o efeito dessa sentença sobre ele. Da mesma forma quero roubar uma frase de um poema do Drummond sobre o amor mas para falar de outra coisa. A frase que também é só um ponto de partida do poema “Reconhecimento do Amor” é “Como são desnorteantes os caminhos da amizade”.

E como são desnorteantes! Eu penso que a maneira como encontramos pessoas nesse mundo, as chances infinitas de não as conhecermos, ou de a conhecermos num dia ruim, feito para provocar as piores impressões, sobre como superamos as diferenças e os defeitos para gerar laços de confiança, de compreensão e afinidade.

undertopia 31aTinha tudo para não ter conhecido o Daniel Viviani, ilustre anfitrião desse programa, e o conheci por vias bem tortas. Por breves dois anos estudei num colégio próximo a casa dele. Nesse colégio alguém que já nem me lembro o nome (desculpe colega, de certa forma você foi o pivô de coisas importantíssimas na minha vida, mas confesso que mal lembro seu rosto) sabendo que eu era um ávido leitor me emprestou um livro de RPG e perguntou se eu não conseguiria decifrá-lo para que pudéssemos jogar umas aventuras. Enfim, eu topei o desafio e conduzi algumas aventuras que não eram dignas de nota, mas que por causa dela fui apresentado a um sujeito de outra classe que jogava RPG também. E esse sujeito, que jogava com o Daniel acabou por me apresentá-lo e eu fui alçado a um mundo de criatividade sem igual. O caminho foi bem mais sinuoso, mas poupo o leitor o desnorteamento.

Eu e o Daniel, acredito que posso dizer que desde o começo tivemos uma afinidade de temperamento, embora eu seja um falastrão loquaz e ele alguém econômico com as palavras, que as usa como um martelo extremamente preciso. E embora abordemos isso de maneiras diferentes, tivemos sempre uma erudição em comum. Porque pensar o mundo é essencial, e uma das ferramentas mais poderosas que temos para isso é a música. A cultura em geral é uma forma de filtrar o mundo. O que você lê, assiste ou ouve são indicativos da maneira como você interpreta as coisas. Interessantemente, o interesse pela música gótica, por um som menos ensolarado em geral é algo que desenvolvemos na mesma época e que muito alimentamos na ocasião, e a música foi um dos laços que ficou para sempre.

Acreditávamos ter uma maturidade acima de nossos anos, mas o tempo veio nos provar que não era bem assim, e tivemos uma briga que foi responsável por não nos termos falado por muito anos. No entanto por um acaso do destino (ou do botão de conversa aleatória do ICQ para quem sabe o que é isso) tivemos a oportunidade de se reencontrar quando nossa cabeça era outra e os motivos de nossa discussão eram não apenas irrelevantes mas um tanto digno de risos. Nesse intermédio, as aventuras que tive oportunidade de jogar sob o comando do Daniel se desenvolveram e seguiram caminhos épicos, pessoas partiram da mesa de jogo e outras entraram.

Uma dessas pessoas, meu colega nesse programa especial e gente finíssima, o Rolando, é prova desses caminhos desnorteantes. Havia toda a chance de eu ter conhecido o Rolando por outros meios que não o Daniel, visto que outro desses colegas de jogo, o Ricardo, é alguém que havia conhecido brevemente anos antes quando mudei de escola no meu terceiro ano do colegial (e sim eu sou do tempo do colegial, me deixem). Se bobear por pouco ele não foi meu professor de física. Provavelmente teriam havido até outros caminhos em que eu poderia ter conhecido o Rolando, mas isso nunca aconteceu até o momento que voltei a jogar RPG com o Daniel.

E se eu sou alguém que usa as palavras como uma adaga de lâmina tão fina que permite múltiplas perfurações sem grande dor, e o Daniel é um martelo de precisão, talvez o Rolando seja ainda mais econômico, alguém que usa uma estaca para cravar no coração de vampiros. No entanto, apesar da sua disposição muitas vezes soturna, é uma figura cheia de humor e de enorme bondade no coração.

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Da esquerda para a direita, Julio Monteiro de Oliveira, Daniel Viviani e Rolando Luís Dias Cândido

Somos pessoas bem diferentes: na forma de se expressar, na índole, até mesmo em certos valores… mas não nos que importam. Porque não fizemos apenas uma escolha por ouvir um tipo de música, de fato fizemos uma escolha por compartilhar certas expectativas de nós mesmos, e que por serem expectativas de caráter comuns a todos nós, não precisamos ter essa expectativa em relação ao outro.

Desde muitos anos, eu e o Daniel e o Rolando temos nossas reuniões para ouvir boa música, tomar bons vinhos e outras bebidas e compartilhar o momento. Conforme os anos passam, acredito que esses momentos onde podemos parar e celebrar nossa amizade, desnorteante e improvável, se tornam cada vez mais especial. E agradeço a oportunidade que o Daniel de compartilharmos essa celebração, esses interesses e visões de mundo com vocês ouvintes do Undertopia.

 

1. Xymox – Evelyn

2. The Cult – Rain – Heaven

3. Silent Birds – Wrong

4. 60 Watt Kid – Take The Pain Out Of Your Chest

5. Phil Retrospector – Song To The Sigur

6. The Pierces – Secret

7. The Cruxshadows – Deception

8. Arcana Obscura – Dark Cities

9. Dead Can Dance – The Host of Seraphim

10. Joy Division – She’s Lost Control

11. Spoek Mathambo – Control

12. X-Wife – She’s Lost Control

13. Cocteau Twins – Sugar Hiccup

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